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Síndrome do pânico. Você pode imaginar o que é sentir isto?


A Síndrome do Pânico causa grandes sofrimentos e é bastante comum, mais do que se imagina. Felizmente existe solução, desde que feito um diagnóstico preciso que a pessoa queira realmente rever sua experiência de vida e seus valores, acompanhado por um profissional qualificado que vai servir como catalisador e orientador do processo.

“De repente os olhos embaçaram, eu fiquei tonto, não conseguia respirar, comecei a ficar com pavor daquele estado, eu não sabia o que estava acontecendo...”

“Depois da primeira vez eu comecei a temer que aquilo repetisse, ficava com medo, não conseguia mais me concentrar em nada... deixei de sair de casa, eu não conseguia nem ir trabalhar...”

Por estes relatos, que poderiam ser de diferentes pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico, é possível identificar o grau de sofrimento e impotência que estas pessoas sentem ao passar pelas crises. A pessoa sente-se desprotegida e seu corpo passa a ter sensações estranhas, porém os exames clínicos não detectam nada de anormal com seu organismo.

Geralmente, a Síndrome do Pânico aparece no começo da vida adulta e é detonada por situações de estresse, como pressões no trabalho, no casamento ou na família, em que a pessoa se sente desamparada. O transtorno é de duas a quatro vezes mais freqüente nas mulheres, mas também pode ocorrer com sinais semelhantes nos homens. É claro que um único episódio de crise de ansiedade não caracteriza a Síndrome do Pânico, mas crises repetidas levam ao desenvolvimento do transtorno.

No pânico o perigo vem de dentro. O organismo responde a um alarme falso, o corpo reage como se estivesse frente a um perigo extremo, porém não há nada visível que possa justificar esta reação.

É comum a pessoa passar a restringir a sua vida ao mínimo, limitando toda forma de estimulação para tentar evitar que aquela sensação volte. Assim a pessoa passa a evitar lugares, foge de atividades físicas e fica em casa, privando-se de muitas experiências, e essa atitude passa a comprometer a sua vida pessoal e profissional. Vamos compreender o que acontece com a pessoa.

O que é a Síndrome do Pânico?

A Síndrome do Pânico é um transtorno psíquico caracterizado pela ocorrência de inesperados ataques de medo extremo e por uma expectativa ansiosa sobre a possibilidade de ter novos ataques. Os ataques de pânico consistem em períodos de intensa ansiedade, geralmente com início súbito e acompanhados por uma sensação de morte iminente. A freqüência das crises varia de pessoa para pessoa e sua duração é variável. Há crises de pânico mais intensas e outras menores.

Durante as crises, os portadores relatam sintomas como:
  • Taquicardia
  • Falta de ar
  • Dor ou desconforto no peito
  • Formigamento
  • Tontura
  • Tremores
  • Náusea ou desconforto abdominal
  • Embasamento da visão
  • Boca seca, dificuldade de engolir
  • Sudorese, ondas de calor ou frio
  • Sensação de iminência da morte
As crises de pânico costumam iniciar a partir de uma reação inicial que cause ansiedade. A partir daí passa a surgir na mente da pessoa uma série de interpretações negativas sobre o que está ocorrendo, sendo muito comum alguns pensamentos catastróficos como o de que a pessoa está perdendo o controle, vai desmaiar, está enlouquecendo ou que vai morrer. No intervalo entre as crises a pessoa costuma viver na expectativa constante de ter uma nova crise. Este processo é chamado de “ansiedade antecipatória”, que leva muitas pessoas a evitar certas situações e a restringir suas vidas a um mínimo de atividades.

A primeira classificação diagnóstica oficial do Transtorno de Pânico ocorreu em 1980, sendo reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A Síndrome de Pânico faz parte dos denominados “transtornos de ansiedade”, juntamente com as fobias (simples ou social), o estresse pós-traumático, o transtorno obsessivo compulsivo e a ansiedade generalizada.

Enquanto nas Fobias Simples a pessoa teme uma situação ou um objeto específico fora dela, como por exemplo, medo de altura ou medo de lugares fechados, no Pânico a pessoa passa a temer as reações de seu próprio corpo; é para essas reações que se volta a atenção, como deflagradores das crises de Pânico.

A Síndrome do Pânico é um estado de ansiedade que poderá ser relacionado a estar em locais ou situações onde escapar ou obter ajuda poderia ser difícil, caso a pessoa tivesse um ataque de pânico. Pode incluir várias situações como estar sozinho, estar no meio de multidão, estar preso no trânsito, dentro do metrô ou num shopping. As pessoas que desenvolvem este tipo de Pânico, geralmente se sentem mais seguras com a companhia de alguém de sua confiança e acabam elegendo alguém como companhia preferencial. Este acompanhante funciona como um regulador, ajudando a pessoa a se sentir menos vulnerável a uma crise de pânico.

Sensações

A pessoa com pânico vive um profundo conflito em relação às suas sensações corporais. Seu corpo é vivido como uma fonte constante de ameaça. A pessoa faz constante interpretações equivocadas de suas sensações corporais, achando que vai ter um ataque cardíaco, que está doente, que vai desmaiar, que vai morrer, etc. Há uma profunda falta de confiança em si mesmo.

A pessoa com Síndrome do Pânico vive ansiosamente o que poderia ser vivido com sentimentos diferenciados. Numa situação que poderia despertar alegria, a pessoa se sente ansiosa; numa situação que provocaria raiva ela também se sente ansiosa. Qualquer reação interna ou sentimento mais intenso tende a despertar reações de ansiedade.

As sensações de Pânico podem ser variadas, desde uma alteração nos batimentos cardíacos, uma sensação de perda de equilíbrio, tontura, falta de ar, enjôo, palpitação, tremor, etc. A presença destes gatilhos corporais podem disparar a ansiedade mesmo quando a pessoa não se dá conta de sua presença.

A ansiedade é a emoção típica da expectativa de perigo, ela ocorre quando a pessoa se projeta numa situação futura sentida como ameaçadora: eu vou... e vou passar mal. A pessoa com pânico vive tomada por graus variados de ansiedade e tem dificuldade de se sentir inteira no momento presente, vivendo como prisioneiro remoendo os seus pensamentos do que irá acontecer no futuro.

O estado de ansiedade leva a rigorosidade no processo de atenção e pensamento. A atenção passa a se deslocar involuntariamente, monitorando o corpo ou o ambiente em busca de algo que possa representar perigo. O enfraquecimento da capacidade de controle voluntário da atenção está relacionado à dificuldade de concentração.

Sob ansiedade a consciência é tomada por um fluxo de preocupações, pensamentos catastróficos e ruminações, a pessoa tem pouco domínio de sua mente. Surgem interpretações equivocadas das sensações corporais e pensamentos catastróficos, onde a pessoa passa a esperar sempre pelo pior.

Ao sentir alguma alteração em seu corpo a pessoa reage com ansiedade. A ansiedade produz um conjunto de reações fisiológicas que são naturais desta emoção. Porém a pessoa com Pânico tende a interpretar estas reações como se elas fossem perigosas. Estes pensamentos catastróficos acabam por produzir mais ansiedade, o que por sua vez vai aumentar ainda mais as reações fisiológicas, reforçando assim os pensamentos catastróficos.

Cria-se assim um circuito infindável, onde as reações fisiológicas naturais do sentimento de ansiedade são interpretadas equivocadamente como perigosas em para si, o que produz mais ansiedade e alimenta os pensamentos catastróficos, num processo sem fim.

Como surge a Síndrome do Pânico

Através do processo emocional podemos regular o nosso próprio estado interno, nos acalmando, nos contendo e motivando.

Através do processo de vínculos com pessoas ligadas ao nosso dia a dia podemos influenciar reciprocamente a parte fisiológica e os afetos um do outro e assim podemos nos acalmar e nos regular nos relacionamentos com pessoas de confiança.

Esses dois processos são normais, necessários e importantes ao longo da vida. Nas pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico encontramos problemas nestes dois processos, tanto uma precária capacidade de regular e controlar o lado emocional, como uma fragilidade nos processos de vínculos.

Tomada pela ansiedade nas crises, mas também num grau menor no período entre as crises, a pessoa com pânico não sabe como apagar o fogo que arde dentro de si.

A qualidade da relação com a própria excitação interna começa a se moldar nas experiências precoces de vida. Inicialmente a mãe ajuda e ampara a criança até que esteja mais madura e possa se amparar. Observa-se que nas pessoas com Síndrome do Pânico esta função não está bem desenvolvida e a pessoa sente-se facilmente ansiosa e vulnerável frente às reações emocionais. É comum, por exemplo, as pessoas com Pânico terem tido mães ansiosas, emocionalmente hiper-reativas, que ao invés de acalmarem a criança, a deixavam mais assustadas a cada pequeno incidente, como um tropeção ou um simples resfriado.

Experiências de vida desde a infância precoce podem atrapalhar o desenvolvimento da capacidade de auto controle, tornando uma pessoa mais vulnerável a desenvolver futuramente um transtorno ansioso como a Síndrome do Pânico.

Muitas pessoas com Pânico costumam solicitar a presença constante de alguém para que se sintam mais seguras. Vivem buscando compensar a sua dificuldade de auto controle através de uma compensação pelo vínculo.

O desenvolvimento da capacidade é fundamental para uma pessoa que tenha medo de suas reações e tenha dificuldade em se auto controlar, como ocorre com as pessoas com Síndrome do Pânico.

Quando duas pessoas estão conversando, elas estão em contato, mas não necessariamente em conexão. Contato é uma interação de presença, que pode ser superficial, enquanto conexão é uma ligação profunda que ocorre mesmo quando as pessoas estão distantes. Duas pessoas podem estar em contato, conversando, mas com baixíssima conexão, como numa situação social formal. Por outro lado, duas pessoas podem estar fisicamente distantes, e, portanto sem contato, mas se sentirem conectadas.

Esta distinção entre contato e conexão é muito importante para compreender o que ocorre na situação que produz as crises de pânico. Muitas pessoas têm a sessão de que quando a crise eclode elas estão sozinhas, sem conexão com os outros. A desconexão pode ser um fator importante para desencadear uma crise de pânico.

A pessoa com pânico geralmente conhece as sensações de estar ausente, meio fora da realidade, se sentindo distante mesmo de quem está ao seu lado. Muitas pessoas relatam que quando estão acompanhadas de alguém confiável, tendem a não ter crises de Pânico. Porém, isto é verdadeiro somente enquanto elas se sentem conectadas com esta pessoa. Quando a outra pessoa está ao lado, portanto em contato, mas sem conexão emocional, a crise de Pânico pode se instalar do mesmo modo. A conexão com o outro pode prevenir as crises por oferecer certa proteção vincular, a garantia de um vínculo que protege contra a sensação de desamparo, que desencadearia a crise. A outra pessoa funciona como um porto seguro. Na ausência da conexão com o outro, o psíquico poderá se desregular e a sensação de pânico, eclodir.

A segurança criada pelos vínculos ocorre, por exemplo, quando a mãe acalma a criança assustada, pegando-a no colo, dirigindo-lhe palavras num tom de voz sereno, ajudando deste modo a diminuir a ansiedade e a agitação da criança. Este processo envolve o estabelecimento de um vínculo com uma comunicação profunda de estados emocionais. Demanda conexão e não apenas contato.

Geralmente as pessoas que desenvolvem Pânico tiveram experiências vinculares traumáticas, que podem envolver perdas, rompimentos, traições ou abandono. Estes traumas prejudicaram a capacidade da pessoa estabelecer e manter conexões emocionais profundas, fator essencial para a segurança emocional criada pelo vínculo.

Assim a pessoa pode algumas vezes se sentir protegida com a presença de alguém de sua confiança, mas acaba voltando ao estado de vulnerabilidade tão logo esta pessoa se afaste. Há uma precariedade na conexão vincular que se torna inconstante e frágil.

Há uma relação significativa entre o Pânico e as crises de ansiedade disparadas pelas situações de separação na infância. Uma boa parte das pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico não conseguiu construir uma referência interna do outro (inicialmente a mãe) que lhe propiciasse segurança e estabilidade emocional. Esta falta de confiança pode trazer, em momentos críticos, vivências profundas de desconexão e desamparo, disparando crises de pânico.

A experiência do Pânico é muito próxima do desespero de uma criança pequena que se sente sozinha, uma experiência limite de sofrimento intenso, de sentir-se exposta, frágil, desprotegida, sob o risco de morte.

As pessoas com Síndrome do Pânico sofrem com uma falta de relação básica, falta de conexão e confiança nos vínculos, o que leva a uma vivência insegura, com experiências de fragilidade, vulnerabilidade e desamparo.

Será que tem solução?

Para uma pessoa ficar boa da Síndrome de Pânico não basta controlar as crises. É necessário integrar as sensações e sentimentos que estavam disparando as crises e assim superar o estado interno de desamparo.

A melhora advém quando a pessoa torna-se capaz de sentir-se identificada com seu emocional, capaz de influenciar seus estados internos, sentindo-se conectada com os outros à sua volta, podendo lidar com os sentimentos internos, se re-conectando com os fatores internos que a precipitaram no Pânico e podendo lidar com eles de um modo mais satisfatório.

Superar a experiência da Síndrome do Pânico pode ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal, de uma retomada vital e contemporânea do processo psicanalítico na vida de cada um.

Publicado em 07/04/2009 às 16:14 hs, atualizado em 01/07/2016 às 10:52 hs


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