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Pontes cobertas: beleza, tradição e história explicadas à luz da engenharia

Por Arq. Me. Iberê Moreira Campos equipe


As pontes cobertas são uma velha tradição no hemisfério norte. Geralmente construídas em madeira, acabaram por fazer parte da paisagem. Conheça alguns exemplares, entenda o funcionamento estrutural e as soluções arquitetônicas adotadas pelos antigos construtores.

Todo mundo que lida com a Internet está acostumado a receber e-mails dos amigos com piadas e textos mandados em anexo, geralmente feitos no Powerpoint. Muita coisa que nos chega é puro lixo ou poesia barata, mas às vezes vem coisa muito interessante.

Recentemente recebi uma apresentação de autoria desconhecida sobre as pontes cobertas do velho mundo. Minha atenção foi chamada para a beleza e romantismo das construções, e me coloquei a pensar no porque destas construções. Acabei concluindo que são um assunto interessante para mostrar aspectos de história, arquitetura e engenharia. Vamos lá então:

As pontes cobertas

Interior de uma ponte cobertaComo toda ponte, são estruturas para atravessar vãos sobre rios ou depressões no terreno. Geralmente eram construídas em madeira, tendo o pavimento suportado por longarinas ou travessas que, por sua vez, apoiavam-se sobre duas ou mais vigas em treliça, tendo por cima de tudo uma cobertura, daí o nome.

Segundo consta, a origem das pontes cobertas remonta ao século XII na Europa – principalmente na Suíça –- e também nos países asiáticos. Dizem também que desde o meio do século 19 até 1958 foram construídas mais de 1.000 pontes apenas no território Canadense do Québec.

As mais antigas sobreviventes encontram-se na Europa e datam da Idade Média. Diz-se que os colonizadores que vieram para o Novo Mundo nos séculos 17 e 18 trouxeram esta tecnologia consigo.

O fato é que existem pontes cobertas praticamente em todas as regiões dos Estados Unidos, bem como no Canadá, em Québec e em Ontário. Deve-se aos Americanos do século 19 o mérito de terem aperfeiçoado a ciência da engenharia e construção das pontes cobertas.

Beleza que conta história

Ponte Saint Andre Chaudière (Appalaches)
Ponte Saint Andre Chaudière (Appalaches)
As pontes cobertas são testemunhas silenciosas de épocas passadas, fazem parte da riqueza do nosso patrimônio. Erguem-se aqui e ali em estradas secundárias ou em locais isolados, oferecendo ao olhar dos visitantes o pitoresco das suas formas.

Sua elegância e cuidado com a estética são exemplos da importância que lhes davam nossos ancestrais. Suas formas, tão típicas, contam à sua maneira páginas da história universal, assim como o fazem outras antigas construções como residências, obras públicas e religiosas.

Seu encanto é inegável. Para algumas pessoas, evocam o romantismo. Para outras, é a decoração campestre que alimenta os sonhos. Para os fotógrafos e os pintores, sempre foram uma fonte de inspiração.

Alguns as chamam de “pontes vermelhas” porque esta tonalidade as tornava visíveis mesmo em plena tempestade de neve. Outros as chamavam de “pontes da colonização” ou “pontes da Crise” quando foram construídas nos anos 30 em vários países vítimas da grande crise econômica de 1929, quando os governos (em especial nos EUA) criaram obras para abrir postos de trabalho e distribuir alguma renda entre a população mais necessitada.

Eram chamadas também de “pontes dos amores”, nome que lhes caia bem pois foram escolhidas por várias gerações de jovens enamorados que procuravam abrigo longe de olhares indiscretos.

Porque eram cobertas?

Ponte McVetty-McKerry (Gould Estrie)
Ponte McVetty-McKerry (Gould Estrie)
A razão primeira era a durabilidade. Sua estrutura consistia em um tabuleiro apoiado sobre vigas, de madeira ou alvenaria com pedras. Quando eram de madeira, se deixadas a descoberto sua esperança de vida limitava-se a algo como 10 ou 20 anos, era o tempo que conseguiam resistir às intempéries sem uma reforma geral.

Os construtores começaram então a cobri-las, a princípio apenas com um telhado, depois começaram também a fechar as laterais com paredes. Com isto, sua vida útil podia chegar a centenas de anos, com um pouquinho de manutenção.

Existia também uma outra razão, de ordem prática. Estas pontes eram utilizadas em lugares frios, onde a neve depositada atinge mais de um metro de altura. Isto significa um peso considerável sobre a estrutura, e o fato do telhado ser inclinado ajuda a diminuir a camada de neve, além de distribuir melhor o peso do que ficou agregado ao telhado. Com isto, alivia-se a carga vertical sobre a estrutura de sustentação.

Acompanhe pela figura ao lado. Numa superfície plana que recebe determinada camada de neve, o peso desta neve acumulada é transmitida integralmente para a estrutura de apoio. Já numa superfície inclinada, a componente vertical da força (peso da neve) se divide, parte fica na direção vertical e parte vai para a horizontal. A diferença é que os componentes horizontais das forças têm sentidos opostos, assim se anulam sendo absorvidas pela tesoura do telhado, poupando a estrutura de apoio horizontal da ponte.

Outro motivo para a cobertura é que se conseguia uma viga lateral de sustentação muito mais alta, ou seja, era possível vencer vãos maiores usando menos material. Todos que têm alguma noção de resistência dos materiais sabem que uma viga é tanto mais resistente à flexão quanto mais alta for, e o mesmo acontece com estruturas treliçadas como as utilizadas nas pontes cobertas.

Veja na figura ao lado. Para vencer determinado vão entre dois apoios com uma viga trabalhando à flexão é preciso uma viga (ou treliça) mais robusta, para vencer o maior momento de inércia. No entanto, o mesmo vão pode ser vencido facilmente usando uma estrutura treliçada de maior altura, necessitando de componentes bem mais delgados e que – devido à distribuição de esforços na treliça – trabalham à compressão e tração, nunca à flexão, situação onde se consegue extrair mais da resistência típica da madeira.

Mas deixemos pra lá a engenharia, vamos curtir um pouco a beleza e romantismo destas estruturas. Abaixo estão mais alguns exemplares, aproveite!

Ponte Guthrie, uma das mais antigas do Québec (1845) e também uma das mais curtas (15 metros)
Ponte Guthrie, uma das mais antigas do Québec


Ponte L’Anse St–Jean (Amqui)
Ponte L’Anse St–Jean (Amqui)


Ponte em clube de golge (Saint Pamphile)
Ponte em clube de golge (Saint Pamphile)


Ponte de La Chapelle (Lucerne, Suíça)
É a ponte em madeira coberta mais antiga da Europa. Construída em 1333, fazia originalmente parte das fortificações da cidade. Seu comprimento de 204m transpõe a ribeira de Reuss, ligando as duas margens que rodeiam a velha cidade. Ao abrigo do seu telhado, uma centena de pequenos painéis pintados no século 17 relatam a história da Suíça, da cidade e dos seus santos padroeiros, Saint Léger e Saint Maurice
Ponte de La Chapelle (Lucerne, Suíça)


Ponte dos Suspiros (Cambridge, Inglaterra)
Pertence ao Colégio St. John da Universidade de Cambridge. Construída em 1831, atravessa a Ribeira Cam. Tem o mesmo nome da ponte de Veneza, mas em comum só o fato de serem ambas cobertas. É uma atração para Cambridge e era a preferida da Raínha Vitória.
Ponte dos Suspiros (Cambridge, Inglaterra)


Ponte Yongji (Chengyang, China)
O nome significa “Ponte do Vento e da Chuva”. Transpõe a ribeira Linxi e é o acesso principal das aldeias Dong de Chengyang (8 aldeias dispersas entre as colinas, perdidas no meio de arrozais). Para aí chegar, atravessam-se múltiplas pontes mas esta é a mais bela da região.
Feita no início do século XX,, foram necessários 12 anos aos aldeões para construir esta obra-prima arquitetônica que é, para os Dong, o lugar simbólico e protetor entre o mundo da aldeia e o mundo exterior.
Ponte Yongji (Chengyang, China)


Ponte Ngruev (Lovech, Bulgária)
Esta ponte transpõe a Ribeira Osam, que inundou em 1872 destruindo a que existia então. Todos os cidadãos de Lovech contribuíram para a reconstrução. Os mais pobres trabalharam na obra, enquanto que os mais ricos fizeram donativos em prata para pagar estes trabalhadores. A construção terminou em 1874. Destruída de novo por um incêndio em 1925, foi reconstruída em 1931 e em 1981 foi substituída por uma versão mais moderna.
Ponte Ngruev (Lovech, Bulgária)


Ponte dos Suspiros (Veneza, Itália)
Apesar da reputação romântica, na verdade sua função é ligar as prisões às salas de julgamento. Ao passar por esta ponte, os prisioneiros suspiravam pela idéia de ver talvez pela últim a vez a cidade e o grande canal. Segue-se por ela quando da visita ao palácio dos doges, desde que se vá às celas que acolheram alguns hóspedes célebres, como Casanova que, ao que consta, não suspirou por muito tempo, pois fugiu...
Ponte dos Suspiros (Veneza, Itália)


Ponte Rialto (Veneza, Itália)
Em pleno coração desta cidade, construída sobre uma lagoa, encontra-se a ponte mais prestigiada e talvez mesmo a mais célebre do mundo. Desde a sua edificação em 1591 a Rialto de pedra é o símbolo de Veneza no mundo enteiro.
Ponte Rialto (Veneza, Itália)


Ponte Vecchio (Florença, Itália)
É a ponte mais antiga de Florença, sendo um de seus símbolos. Transpõe o Rio Arno e remonta provavelmente à época da colonização romana. É a única ponte florentina poupada quando a cidade foi bombardeada em 1944, durante a 2ª Guerra Mundial. Ao passear pela ponte pode-se admirar as preciosas lojas dos ourives florentinos. No centro deste desfilar de belezas, a ponte abre-se em duas varandas panorâmicas.
Ponte Vecchio (Florença, Itália)


Ponte japonesa em Hoi An, Vietnã
Construída em 1593 pela comunidade japonesa de Hoi An, não foi praticamente alterada depois disto. Os dois macacos e os dois cães, visíveis nos dois lados das entradas, indicam que a construção começou no ano do macaco e acabou no ano do cão pelo horóscopo chinês.
Ponte japonesa em Hoi An, Vietnã


Ponte de Pávia (Lombardia, Itália)
Liga o centro da cidade ao antigo burgo medieval. Bombardeada durante a segunda guerra mundial, foi reconstruida no início dos anos cinquenta.
Ponte de Pávia (Lombardia, Itália)


Publicado em 20/11/2008 às 14:12 hs, atualizado em 01/07/2016 às 10:46 hs


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